Cultura de cancelamento na cena política: formas de agenciamento na circulação digital dos discursos

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Abstract

 Dizer do engendramento da materialidade digital (Gallo, 2019)  nas condições de produção do discurso na contemporaneidade é uma tarefa incontornável na esteira de compreender o lugar das mídias digitais nos processos de significação e as determinações que essa materialidade enseja nas formas de ver e interpretar o hoje. Nessas condições de enunciação, o dizer de si  - através de stories, lives ou outras formas de textualização digital - tornou-se um ato de influência, que faz trabalhar formas de engajamento e agenciamento dos sujeitos que se inscrevem na  audiência de personalidades midiáticas. Dentre as práticas discursivas emergentes dessa conjuntura de digitalização dos afetos, sobressalta-me a prática de cancelamento, sintoma e efeito que apontam para o desejo (do sujeito-cancelador) de interdição de uma determinada posição (do sujeito-cancelado) no discurso. Neste trabalho, alicerçado na Análise do Discurso Materialista, retorno às discussões de Michel Pêcheux sobre as modalidades de subjetivação (Pêcheux, 2014) para sustentar a interpretação de que o cancelamento se estabelece na tensão entre a tomada de posição do sujeito-enunciador (relação com a formação discursiva) e o que a sua audiência regula que pode/deve ser dito. Assim, me direciono pela argumentação, percebida como um modo de “sustentação de sentidos em processos de significação, estruturando-se ideologicamente em uma formação discursiva (e não outra).” (Orlandi, 2023, p. 52). Na esteira metodológica, parto do movimento de  descrever e interpretar (Pêcheux, 2015), para analisar recortes de uma  live  de Jojo Toddynho no Instagram, realizada em Setembro de 2024, orientando-me, no plano analítico, pelas seguintes questões: I. Quais lugares de enunciação (Zoppi-Fontana, 1999, 2017) são mobilizados no dizer de Jojo Toddynho? II. Quais posições são sustentadas ideologicamente na textualização da live? III. Como percebo a chegada do  efeito de cancelamento sobre a posição enunciada no discurso de Jojo Toddynho na live? No horizonte, portanto, delineia-se uma possibilidade de pensar os movimentos de cancelamento inscritos na Midiocracia, termo de  Byung Chul-Han (2022, p. 29) para explicar que “o entretenimento é o mandamento supremo, ao qual também a política se submete”, e, dessa forma,  produz efeitos no campo da política, no percurso de sujeitos e sentidos e compondo transformações na malha democrática, cada vez mais afetada pelos performativos político-digitais.

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