A Mudança em se Apaixonar: Nanossintaxe, Semântica, Cognição e Regência
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Neste trabalho, investigo o fenômeno de mudança na regência do verbo “se apaixonar” no Português Brasileiro contemporâneo, caracterizado pela substituição da preposição canônica “por” pela preposição “em” (ex: me apaixonei no samba). Sob o arcabouço da interface entre Nanossintaxe e Semântica Formal (Ferreira, 2021), complementado por princípios da Linguística Cognitiva, lanço hipóteses para a análise do fenômeno e de sua motivação. Sustento que o uso de “em” reflete uma reanálise da estrutura argumental do verbo: o objeto da paixão deixa de ser projetado como um Agente Causador (aquele que deflagra o sentimento) para ser projetado como um Foco ou Localizador Abstrato. Argumento que essa mudança é impulsionada por analogia a um cluster (Bybee, 2010) de verbos de estado mental (como pensar em, focar em, ter crush em) e fundamentada na Metáfora do Recipiente (Container Metaphor) (Lakoff & Johnson, 2003), em que o estado de paixão é conceptualizado como um domínio de imersão. Formalmente, descrevo que a gramaticalidade da nova construção deriva da flexibilidade da arquitetura nanossintática: ao não projetar a estrutura funcional completa necessária para criar um lugar físico, a preposição “em” retém apenas seu conceito lexical de “inclusão/contato”. Isso permite que o falante utilize a preposição para marcar um “lugar nocional” (o alvo da paixão). Concluo que a forma “se apaixonar em” não constitui um erro, mas uma inovação sistemática, na qual a pressão do uso explora uma possibilidade formal da língua para expressar uma nova conceptualização do sentimento como foco e imersão.