Trabalho na mídia, capitalismo de vigilância e a ascensão da ideologia de extrema-direita no Brasil
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A ascensão de Jair Bolsonaro e a ampla guinada ideológica do Brasil em direção à extrema-direita sinalizam uma transformação significativa no cenário político do país, marcada pelo ressurgimento de discursos e imaginários políticos que lembram a ditadura militar (1964-1985). Este estudo examina os mecanismos que sustentam essa mudança por meio de duas abordagens etnográficas complementares: (1) uma análise de grupos do WhatsApp e do Telegram e (2) um exame de canais de vídeo de extrema-direita no YouTube. Argumentamos que, ao controlar estrategicamente o fluxo de informações em milhares de grupos digitalmente segmentados, a extrema-direita conseguiu mobilizar o trabalho midiático, o qual foi subsequentemente monetizado através das estruturas de incentivo das plataformas das big techs que operam no contexto do capitalismo de vigilância. Com base na conceituação de poder estrutural de Eric Wolf, argumentamos que esse processo constitui uma consolidação da influência política por meio da articulação do poder organizacional. Além disso, destacamos como um sistema midiático fundamentalmente estruturado em torno do capitalismo de vigilância fomenta a erosão democrática, exemplificada pela guinada conservadora no Brasil e pelo ressurgimento de uma estrutura ideológica que concebe a sociedade como uma ordem hierárquica na qual grupos subalternos devem ser assimilados ou eliminados. Essa lógica, enraizada nas práticas autoritárias da ditadura, é reconfigurada dentro de infraestruturas digitais contemporâneas que facilitam a naturalização da violência contra modos de vida não-ocidentais. Em vez de fomentar a pluralidade democrática, esse sistema opera em contradição com os princípios do florescimento humano. No contexto brasileiro, o estabelecimento do capitalismo de vigilância nos sistemas de informação jornalística desempenhou um papel crucial na mobilização de apoio a políticas de exclusão e submissão.