Influência, Desvios e Excessos no Setor Farmacêutico

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Abstract

Desde a descoberta da penicilina por Alexander Fleming, em 1928, o setor farmacêutico expandiu-se de modo acelerado, tornando-se, na atualidade, um dos segmentos mais poderosos da economia global, com faturamento anual estimado em cerca de US$ 1,5 trilhão e grandes corporações avaliadas em centenas de bilhões de dólares. Embora avanços científico-tecnológicos e transformações socioeconômicas tenham impulsionado a pesquisa e o desenvolvimento de medicamentos, contribuindo para ganhos relevantes, a literatura crítica tem destacado práticas controversas de influência corporativa – aqui sintetizadas como “Influência, Desvios e Excessos” – que favorecem o crescimento, a rentabilidade e a consolidação de poder, por vezes em conflito com o interesse coletivo e a saúde pública. Nesse contexto, este artigo adota delineamento exploratório-descritivo e abordagem mista, com triangulação entre dados públicos, documentos institucionais e revisão crítica da literatura internacional, a fim de mapear e descrever mecanismos de influência corporativa no setor farmacêutico em oito eixos: (i) lobby e financiamento eleitoral; (ii) influência em órgãos de regulação e fiscalização; (iii) influência em organizações de pacientes; (iv) influência na elaboração de diretrizes clínicas; (v) manipulação, promoção e ocultação de pesquisas e testes de medicamentos; (vi) escrita fantasma; (vii) estratégias de ampliação diagnóstica e promoção de doenças; e (viii) financiamento e oferta de benefícios a prescritores e instituições, incluindo mecanismos psicossociais e dimensões formativas. Os achados indicam que a influência corporativa se estrutura em múltiplas escalas e opera de forma simultaneamente visível e difusa. No plano político, evidencia-se a centralidade do lobby e do financiamento eleitoral como instrumentos de conformação do ambiente normativo e regulatório, com expansão progressiva dos investimentos. Na esfera regulatória, a recorrência de conflitos de interesse em comitês consultivos e a circulação de quadros entre agências e empresas sugerem vulnerabilidades à captura institucional, com implicações para os processos de aprovação, fiscalização e retirada de medicamentos. No domínio científico, o patrocínio industrial associa-se a vieses que podem incidir desde o desenho e a condução de ensaios até a publicação seletiva de resultados, além de práticas como ghostwriting e estratégias de “preparação de mercado”, afetando a credibilidade e a circulação das evidências. Em paralelo, observa-se a atuação da indústria na expansão diagnóstica e na medicalização de condições da vida cotidiana, ampliando mercados e podendo invisibilizar determinantes sociais e abordagens não farmacológicas. Na prática clínica, pagamentos e transferências de valor a prescritores e instituições de ensino associam-se a mudanças nos padrões de prescrição, aumento de custos e favorecimento de medicamentos promovidos, inclusive por meio de benefícios de baixo valor, mediados por vieses cognitivos.

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