Entre razões e fatos: integridade informacional e os limites da teoria deliberativa
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Neste artigo argumentamos que a teoria democrática deliberativa, embora tenha sofisticado os critérios normativos da legitimidade política ao enfatizar a troca pública de razões, negligenciou a tematização explícita das condições epistêmicas do ambiente informacional no qual a deliberação ocorre. A partir de uma reconstrução crítica das formulações de Habermas e Rawls, mostramos que ambas pressupõem um pano de fundo informacional minimamente íntegro, no qual afirmações factuais possam ser contestadas e corrigidas. Em contextos contemporâneos marcados por desinformação sistemática, fragmentação de públicos e manipulação da visibilidade, esse pressuposto torna-se insustentável. Sustentamos que a ausência de integridade informacional compromete diretamente os critérios centrais da deliberação — publicidade, reciprocidade, justificabilidade e orientação ao melhor argumento —, levando a um colapso de sua função normativa, ainda que práticas deliberativas persistam empiricamente. Propomos, então, uma definição mínima e negativa de integridade da informação, entendida como ausência de distorções estruturais que tornem a falsidade sistematicamente vantajosa e a correção inviável. Nosso intuito é mostrar que a integridade informacional deve ser concebida como condição constitutiva da deliberação democrática, e não como fator meramente instrumental.